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‘Apagão informativo’: Turcos acusam imprensa de ceder à pressão política

El PaísJuan Carlos Sanz e José M. Calatayud
Em Istambul (Turquia) uol-07-06-2013

O carro-grua que rebocava a unidade móvel da rede de TV turca NTV, calcinada e coberta de grafite, parou na última barricada da praça Taksim. Um grupo diversificado de manifestantes exigia ao meio-dia de quarta-feira que a carcaça permanecesse ali como símbolo, proclamaram, do desprezo dos grandes meios de comunicação por seu movimento de protesto.

Paradoxalmente, a imprensa turca parece estar presa agora entre dois fogos: além do assédio do poder político –com dezenas de informadores processados e presos–, sofre a ira dos jovens indignados que se levantaram em Istambul e outras grandes cidades contra a deriva autoritária de um governo de raízes islâmicas.

Como destacaram em seus relatórios de 2012 a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e o Comitê para Proteção dos Jornalistas (CPJ), a Turquia está em posição de destaque entre os países que reprimem os informadores, com até 75 repórteres na prisão, dois terços dos quais se relacionam ao conflito curdo. “A situação da liberdade de imprensa alcançou um nível crítico na Turquia”, alerta o CPJ.

“Na atualidade há cerca de 50 jornalistas presos, a maioria sem ter sido processada”, diz o advogado N. Kaan Karcilioglu, secretário-geral do Conselho Turco de Imprensa. Mas, se às ameaças do poder político somarmos a crise econômica da mídia e as pressões dos grupos editores –alguns com interesses no setor imobiliário–, o resultado, segundo Karcilioglu, “chama-se autocensura”.

O clima de coerção que vive a mídia em pleno protesto dos indignados turcos chega ao absurdo. A transmissão do programa de TV Jogo de Palavras, uma versão do popular show da Bloomberg HT, foi suspensa sem que a rede oferecesse explicações ao público depois que, na segunda-feira, o apresentador propôs aos candidatos termos como “máscara de gás”, “polícia”, “detenção” e outros que aludiam aos protestos de Taksim.

O secretário do Conselho Turco de Imprensa reconhece que “no princípio alguns fatos de grande relevância foram cometidos pelos grandes meios, o que gerou frustração do público pela falta de cobertura. Mas depois do fim de semana reajustaram sua linha editorial”. “Por exemplo, e salvando as distâncias, quando ocorreu um golpe de Estado na Espanha em 1981, nem todos os veículos reagiram com a mesma rapidez que ‘El País'”, lembra Karcilioglu.

O padrão informativo nos protestos de Taksim já começou a passar a fatura à imprensa turca. Quando os grandes meios tradicionais dão as costas à realidade, os cidadãos agora dirigem seu olhar para as redes sociais. “A independência informativa pode ter entrado em uma espécie de bancarrota editorial”, afirma o colunista Yavuz Baydar. Enquanto os canhões de água e os gases lacrimogêneos transformavam Taksim em um cenário de guerra no sábado, o canal Haber Türk transmitia um programa sobre a esquizofrenia, e a CNN Türk, um sobre pinguins. “Quase todas as redes transmitiam documentários ou seriados enquanto ocorria a notícia do dia”, conclui Baydar.

Para Yucel Yilmaz, um bibliotecário de 40 anos que na quarta-feira montava no parque Gezi uma pequena biblioteca de livros doados com outros voluntários, a cobertura da revolta de Taksim foi um insulto à inteligência. “Meu filho, que tem 5 anos, gosta de pinguins. A mídia deve acreditar que somos todos crianças”, argumentou.

Os responsáveis pelo Grupo Dogus, proprietário da NTV, pediram desculpas a seus redatores, segundo revela o secretário do Conselho de Imprensa, por terem transmitido no sábado um documentário sobre a Segunda Guerra Mundial em plena explosão de Taksim. A carcaça de sua unidade móvel continua na praça, em cujo entorno a Repórteres Sem Fronteiras já eleva a 14 o número de jornalistas detidos desde o início dos protestos.