Guarulhos-Noticias/Gng Guarulhos-Noticias/Gng Gru Guarulhos Home GnG Gru Guarulhos Manifestações no Brasil e Greve Geral: pautas requentadas no micro (por Ana Carolina Martins da Silva)

Manifestações no Brasil e Greve Geral: pautas requentadas no micro (por Ana Carolina Martins da Silva)

Manifestações no Brasil e Greve Geral: pautas requentadas no micro (por Ana Carolina Martins da Silva)

Parodiando o Exaltasamba, em sua canção “Tô dentro, tô fora”, começo esse artigo depois de algumas semanas de silêncio. Eu explico: Agendada para 1 de julho, marcha do nada uma greve geral anônima com pautas genéricas, dessa, “tô fora”. Para o dia 11 de julho, organiza-se outra promovida por movimentos sociais, centrais sindicais e partidos, com pautas históricas, coerentes e pontuais, dessa, “tô dentro”.

Tenho estado em silêncio desde que começaram as manifestações. Aprendi isso com meu gato. Quando ele quer aprender sobre algo, fica imóvel, olhos fixos, silencioso, parece um enfeitinho de mesa. Eu o chamo, ele só mexe a ponta das orelhas e continua com os olhos fixos. Calcula, reflete, mede, então decide se pula e vai caçar o que vê, ou se não lhe interessa. Eu fiquei calculando, refletindo, medindo esse momento histórico. Mobilização popular dessa monta foi sempre o meu sonho como militante, seja de partido de esquerda, seja da educação, seja da ecologia. Esse era meu sonho: uma passeata destas pela UERGS, ou contra a monocultura de árvores, pelo fim do uso agrotóxico e – sim – pelo fim da corrupção. Quem de nós, militantes, nunca sonhou com o que tem acontecido no Brasil?

Porém, como em todo o sonho muito intenso, há coisas que não entendemos, sabemos que estamos falando com uma pessoa nossa, mas parece que o rosto não combina. Muitas vezes, acordamos suados e tensos, tentando abrir portas de lugares que nem sabemos quais são e que não se abrem. Sonho é assim. Este, das manifestações, é assim também para mim. As perguntas se repetem: por que não se pode ver o rosto das pessoas que falam coisas que parecem verdades para tantas pessoas? Por que, de repente, tantos e ao mesmo tempo? Por que a mídia está dando tanto espaço agora? Por que os estudantes, se grande parte deles estão na Universidade através do ENEM, do PROUNI, bolsa-não-sei-o-quê e taus e taus? Por quê? Como que nunca se conseguiu isso em anos e mais anos de trabalho e – do nada – plim, todo mundo na rua! Todo mundo! Por quê?

Tenho tentado entender esse fenômeno. Por ser algo novo, julguei prudente esperar um pouco para ver como ia acabar, mas não parece estar acabando e o rumo que está seguindo, não é mais original – manipulação das massas e das opiniões. Então, resolvi me manifestar.

Sobre personagens como o Anonymus, é compreensível sua aceitação pela grande maioria de jovens que percorrem as passeatas. É assim com muitos personagens da grande mídia, tais como Harry Potter, Simpson, Seu Madruga. Eles são aceitos num primeiro momento como uma piada, depois como uma relação de identidade, depois como uma forma de expressão. Quem vê o filme de ação “V de vingança”, sente-se motivado e encantado. Porém, como não se pode ver o rosto das pessoas que falam hoje, que quebram vidros e portas, como justiceiros de filme, como acreditar neles, como acreditar em sua legitimidade? Lembro-me de revoluções antigas, em todas elas, os “mocinhos” tinham rosto, endereço, eram pessoas lutando por pessoas e causas. Estes “mocinhos” sempre foram perseguidos e apresentados na mídia como bandidos, radicais, “shiitas”, agora, do nada, pessoas comuns, mascaradas ou não, que pedem coisas genéricas como um país melhor, não à corrupção e maior mobilidade urbana são apresentadas como heroínas? Do nada? Uma enorme massa se movimentando pedindo coisas, requentando pautas históricas e não apresentando soluções inovadoras e concretas virando protagonistas do horário nobre da TV? Por quê?

Por que mobilidade urbana – como sinônimo de mais cortes de árvores nas cidades grandes, dando lugar às estradas, mais deslocamentos de pessoas de suas casas para dar lugar a grandes vias, por exemplo, parece uma boa solução? Por que empilhar mais pessoas nas cidades grandes? Por que não pedem o desenvolvimento regional? Em São Borja, há três universidades e um Instituto Federal. Todos com problemas de pouco ingresso de alunos. Por que então enviar mais dinheiro para as cidades grandes, ao invés de criar uma solução no interior? Por que pedirem mais ônibus nas cidades abarrotadas, ao invés de pedirem vilas de estudantes nas cidades do interior, onde temos UERGS, UNIPAMPA, Universidades Federais, Institutos Federais, com alimentação e previdência social financiada pelo governo no pacote educacional?

Quando se estuda comunicação de massa, tem-se um conceito bastante simples, tudo que sai do mesmo emissor e atinge um número enorme de receptores, ao mesmo tempo, em muitos lugares geograficamente separados, é comunicação de massa. Por que o Facebook é considerado “mocinho” na área da Comunicação de Massa, ao invés de “bandido”? Por que é considerado aliado ou pior – alternativo? Estariam essas pessoas respondendo aos seus anseios políticos, construídos em debate, ou a inúmeros apelos midiáticos antidemocráticos que circulam com fotinhos manipuladas, frases de efeito aos cântaros pelas redes sociais? A quem interessa isso, para que possa ter tanto espaço na mídia convencional e na mídia das redes sociais? Como, o que nunca se conseguiu em anos e mais anos de trabalho de militância é “autorizado” agora? Por que agora?

Continuo observando, enquanto vejo o Centro Histórico de Porto Alegre sendo destruído, apedrejado, sujo, pichado, quebrado. Cenário para uma guerra genérica, de pautas amplas e sem rosto.

Eu continuo com minhas pautas antigas: educação, ecologia, desenvolvimento regional, honestidade na política, representatividade coerente. Apoio esse movimento genérico de não à corrupção, penso que a derrubada da PEC 37 foi um avanço, fiquei feliz ao ver a presença firme da Presidenta mostrando que está ouvindo as vozes, mas que isso não quer dizer que concorda com a violência, nem com a destruição do patrimônio público, acho importante – eu também não. Há um diálogo começando a ser estabelecido, esse diálogo deve evoluir agora para reflexões mais profundas. Liberar o passe do ônibus para os estudantes é maravilhoso, mas às custas de menos recebimento de impostos do empresariado para o Estado, penso que é um erro. Então, uma massa percorre todo o Brasil para liberar empresários de impostos? Não creio que era essa a meta.

Estou preocupada agora com as soluções apresentadas para essas manifestações. Penso que, até agora, continuam privilegiando o capital: menos impostos para empresários do transporte, mais construções nas cidades grandes (privilegiando as empreiteiras e a construção civil – ver caso da areia no rio Jacuí), mais construções de hospitais – qual é o problema com os que já existem? Alguém discorda que o maior problema é estarem sob administração da máfia branca? – Quem vai mexer com a máfia branca? Vão fazer mais hospitais e entregar para os lobos administrarem – de novo? Organização precisa de administrador, doente precisa de médico. Alguém está falando sobre isso?

Quando surge uma proposta de uma greve geral, marcada por ninguém para um dia aleatório (1 de julho), a partir de nenhum debate concreto, eu digo – não “tô fora”. Vou considerar a proposta construída pelos Movimentos Sociais. Segundo reportagem do jornal on line “Portal Vermelho” * (26 DE JUNHO DE 2013 – 13H40): “77 organizações de movimentos sociais e partidos de esquerda reunidos na noite de terça-feira (25), aprovaram o 11 de julho como Dia Nacional de Paralisação e Luta da Classe Trabalhadora.” Estiveram presentes na reunião representantes do MST, Confederação Nacional das Associações de Moradores (Conam), da União da Juventude Socialista (UJS), da Marcha Mundial de Mulheres (MMM), do Levante Popular da Juventude, da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB) e dos partidos PT, PCdoB, PSTU, Psol, PCO, PCB, PSB e PPL, dentre outros.

Nesse encontro, foram unificados pontos pelas centrais, apresentados à presidenta Dilma durante o encontro em Brasília, no dia 26, que são: “fim do fator previdenciário; 10% do PIB para a Saúde; 10% do PIB para a Educação; redução da Jornada de Trabalho para 40h semanais, sem redução de salários; valorização das Aposentadorias; transporte público e de qualidade; reforma agrária; mudanças nos Leilões de Petróleo e rechaço ao PL 4330, sobre terceirização.” Além de aproximadamente 31 orientações políticas, como a questão da privatização do setor energético, denúncias que se referem aos direitos humanos e ao avanço das ideias conservadoras no Congresso Nacional, contra o genocídio da população negra e dos indígenas; contra o Estatuto do Nascituro e a proposta de cura gay; contra a repressão e criminalização das lutas dos movimentos sociais; contra a redução da maioridade penal e pela punição dos torturadores da ditadura militar e assim vai.

Essa pauta, apresentada com data de nascimento, sobrenome, pai e mãe, me serve, “tô dentro”. Dia 11 de julho como Dia Nacional de Paralisação e Luta da Classe Trabalhadora! Curti.

(*Portal Vermelho: 

Ana Carolina Martins da Silva é Mestre em Comunicação Social pela UMESP/SP, Profa. Da UERGS (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul) VEJA VIDEOS RELACIONADOS 

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