Ex-general sérvio é condenado a prisão perpétua por genocídio na Bósnia

 11:19:14

Culpado por crimes de guerra, Ratko Mladic teve acesso de raiva em tribunal

POR O GLOBO / AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

Mladic comparece a Tribunal Penal Internacional de Haia para a antiga Iugoslávia (TPII), antes de ser sentenciado à prisão perpétua – POOL / REUTERS

HAIA — O ex-general sérvio-bósnio Ratko Mladic foi condenado à prisão perpétua nesta quarta-feira pelo massacre de Srebrenica e por crimes de guerra e contra a Humanidade durante a guerra da Bósnia (1992-1995) pelo Tribunal Penal Internacional. Hoje com 74 anos, o réu não pôde ouvir a leitura do seu veredito após um acesso de raiva com gritos e foi retirado do tribunal por mau comportamento. Após 16 anos em fuga, Mladic foi capturado na Sérvia em 2011 e, hoje, é o último fugitivo sendo julgado pela Justiça internacional.

O caso está sendo julgado pelo Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPII), que encerrará suas atividades ainda neste ano. Madlic foi considerado culpado por dez de onze acusações, incluindo a morte de 8 mil homens e meninos muçulmanos em Srebrenica e o cerco a Sarajevo, em que mais de 11 mil civis foram mortos por uma campanha de franco-atiradores e bombardeios durante 43 meses. Segundo a corte, o ex-líder militar realizou estas ações intencionalmente, tendo contribuindo significativamente ao massacre em Srebrenica e dirigido pessoalmente o cerco a Sarajevo. Por isso, foi condenado pelos crimes de extermínio, perseguição e assassinatos.

Durante a leitura do veredito, Mladic se levantou e gritou com os juízes presentes. A defesa pediu que a sessão fosse interrompida, alegando que o acusado sofria de um problema de pressão arterial. O juiz Alphons Orie, no entanto, não atendeu o pedido e ordenou que Mladic fosse retirado da sala. O ex-general se declara inocente para todas as acusações, e deverá apelar da sua condenação.

— Eles mentem, vocês mentem. Não me sinto bem — gritou o acusado.

Ex-general sérvio-bósnio Ratko Mladic teve surto de raiva durante sessão do Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia (TPII) – AP

Em julho de 1995, as tropas comandadas por Mladic cercaram Srebrenica, numa ação que resultou no assassinato de mais de 8 mil bósnios muçulmanos, de crianças a idosos. Os homens foram separados das mulheres e levados em ônibus para serem assassinados. Desde a Segunda Guerra Mundial, foi o maior assassinato em massa da Europa e o primeiro caso legalmente reconhecido como genocídio desde o Holocausto.

— Os crimes cometidos estão entre os mais hediondos conhecidos pela Humanidade, e incluem genocídio, extermínio e crimes contra a Humanidade — disse o juíz, Alphons Orie, que presidia a sessão, ao ler o veredito. — Muitos destes homens e meninos foram amaldiçoados, insultados, ameaçados, forçados a cantar músicas sérvias e espancados enquanto aguardavam sua execução.

Após as execuções, os corpos foram escondidos em valas comuns. Alguns, inclusive, foram levados a zonas remotas, para que as dimensõs do massacre ficassem escondidas do mundo. Até hoje, mais de 6,9 mil vítimas já foram identificadas por exames de DNA.

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COMEMORAÇÃO EM SREBRENICA

Em Srebrenica, comunidade muçulmana celebra condenação de Mladic enquanto assistem à sessão do tribunal em Haia – Amel Emric / AP

Após o veredito, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein, considerou a condenação de Mladic “um momento vitorioso para a Justiça” e chamou o ex-general de “a epítome do mal”. Até hoje, o Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia já indiciou 161 pessoas originárias de Bósnia, Croácia, Sérvia Montenegro e Kosovo. Destas, 83 foram condenadas, dos quais mais de 60 eram sérvios.

“Mladic é a epítome do mal, e a sua condenação é a epítome do que a Justiça internacional deve ser”, disse Zeid em nota. “O veredito de hoje é um alerta aos responsáveis por estes crimes que não vão escapar à Justiça, não importa quão poderosos eles podem ou quanto tempo possa levar”

Fikret Alic, muçulmano fotografado atrás de uma cerca de arame farpado na Bósnia, que tornou-se símbolo dos horrores da guerra, viajou a Haia para ouvir o veredito de Mladic. Antes da decisão ser pronunciada, ele expressou sua esperança por uma condenação:

— Eu espero que este criminoso que cometeu as atrocidades que aconteceram a nós não seja visto como herói.

AÇÃO DOS HOLANDESES

Em foto de arquivo, soldados holandeses da ONU sobre transporte militar observam refugiados muçulmanos de Srebrenica – Anonymous / AP / 13/07/1990

Em junho deste ano, a Justiça internacional considerou o Estado holandês parcialmente responsável pela morte de 350 muçulmanos durante o massacre de Srebrenica, na Bósnia, em 1995 e ordenou o pagamento de uma indenização. Segundo o juiz Gepke Dulek, do Tribunal de Apelações de Haia, os capacetes azuis holandeses facilitaram a separação de homens e garotos muçulmanos, “sabendo que havia um risco real de que teriam um tratamento desumano por parte dos sérvios da Bósnia”.

Os capacetes azuis holandeses foram os últimos integrantes da Força de Proteção da ONU (Unprofor), enviados aos territórios de Srebrenica, Gorazde e Zepa, que em 1993 foram declarados “zonas seguras pela ONU e, em consequência, milhares de bósnios muçulmanos foram destinados a eles. Nessas zonas, o contingente enviado só tinha autorização para usar a força em autodefesa, não para proteger a população civil que lá vivia, apesar das advertências de que uma limpeza étnica estava em curso.

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