Brasil coloca em risco resultado de vacinação da Covid por falta de comparecimento para 2ª dose

Brasil coloca em risco resultado de vacinação da Covid por falta de comparecimento para 2ª dose
Brasil coloca em risco resultado de vacinação da Covid por falta de comparecimento para 2ª dose
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13:23:14

RIO DE JANEIRO (Reuters) – O sucesso da campanha de vacinação contra a Covid-19 no Brasil pode ser colocado em risco se mais pessoas continuarem a não comparecer para tomar a segunda dose, o que tem ocorrido, segundo especialistas, principalmente pela falta de uma campanha de informação efetiva por parte do governo federal sobre a necessidade da vacina de reforço.

Todos os estudos clínicos que embasaram a aprovação das vacinas usadas no Brasil foram feitos com base em duas doses, e o não cumprimento do ciclo completo pode comprometer o combate à Covid-19 em um país que atualmente é responsável por uma de cada cinco mortes registradas por dia no mundo pela doença, acrescentaram.

Vacina mais utilizada no país contra a Covid-19, a CoronaVac, por exemplo, tem eficácia de apenas 16% para evitar uma infecção sintomática em pessoas que receberam apenas uma dose, de acordo com estudo realizado pelo Ministério da Saúde do Chile.

“Se a gente não fizer as duas doses a gente não vai ter nem a proteção completa nem a longo prazo. Precisamos que as pessoas façam o esquema completo para termos não só a proteção do indivíduo, mas também do coletivo”, disse à Reuters o médico Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).

Muitas pessoas podem estar deixando de comparecer para tomar o reforço vacinal simplesmente por não terem conhecimento da importância, por esquecimento –principalmente no caso dos idosos– ou por terem sofrido algum evento adverso na primeira dose, de acordo com especialistas e autoridades envolvidas no processo de vacinação.

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Com a demora do governo federal para adquirir imunizantes e atrasos no processo de produção no país, também houve casos, ainda que isolados, de falta de vacinas e longas filas para aplicação da segunda dose em alguns municípios, afirmaram.

Mais de 1,5 milhão de pessoas deixaram de tomar a segunda dose, de acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, que reconheceu a gravidade do problema e alertou as pessoas a se vacinarem — mas ainda não tomou medidas efetivas para solucioná-lo.

“A campanha do ministério é muito ruim”, disse Carlos Lula, secretário de Saúde do Maranhão e presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), citando também a dificuldade de locomoção como um possível motivo para o não comparecimento para a segunda dose.

Segundo ele, o ministério tem demonstrado preocupação, mas “objetivamente não lançou nada de concreto” para promover a vacinação da segunda dose.

O Brasil vacinou até o momento 25,7 milhões de pessoas com a primeira dose, o equivalente a 12,2% da população, mas somente 10 milhões tomaram as duas doses, o que representa 4,7% da população, de acordo com dados do ministério atualizados até esta sexta de manhã.

Procurado, o ministério não respondeu a um pedido de comentário sobre por que tantas pessoas não têm comparecido para tomar a segunda dose, mas disse que tem reforçado junto aos representantes dos Estados e municípios a necessidade de adotar estratégias locais de comunicação para conscientizar a população sobre a importância de completar a imunização no prazo recomendado de cada vacina.

“Nós não sabemos se as pessoas tomarem só uma dose qual será realmente a eficácia da vacina, e principalmente como isso vai se comportar na efetividade da vacinação, ou seja, se efetivamente as pessoas estarão protegidas com uma dose e se haverá um impacto importante na diminuição da carga da doença, e principalmente em relação à imunidade de grupo”, disse a epidemiologista Carla Domingues, ex-chefe do Programa Nacional de Imunização (PNI).

O estudo no Chile sobre a CoronaVac, que representa mais e 80% de todas as doses aplicadas no Brasil, mostrou que a eficácia contra casos sintomáticos da Covid subiu para 67% entre aqueles que tomaram as duas doses, ante os 16% com apenas uma dose. A vacina da AstraZeneca, a única outra em aplicação no país, tem uma eficácia bem maior após a primeira dose, de 76%, duas semanas após a inoculação.

Segundo o Ministério da Saúde, não há falta de vacinas para a aplicação da segunda dose, uma vez que a distribuição foi feita aos Estados com divisão entre doses 1 e 2 e orientação para armazenamento da segunda dose.

A pasta, no entanto, mudou essa orientação no mês passado, autorizando a aplicação de todas as vacinas como primeira dose, afirmando ter garantia de entrega de vacinas pelos fornecedores e num esforço para acelerar o ritmo da campanha de imunização.

De acordo com o ministério, mais de 19 milhões de doses de vacinas já foram repassadas aos Estados, mas ainda não foram aplicadas.

“O Ministério precisa lançar uma campanha constante e massiva para que as pessoas não esqueçam de tomar a segunda dose. A pessoa tem que acordar e ouvir todo dia no rádio, na televisão, que tem que tomar a segunda dose, não pode perder o prazo”, disse Cristina Bonorino, integrante do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia.

Em nota, o ministério prometeu lançar uma campanha nacional para fazer um chamamento à população. “A campanha será veiculada em TV, rádio, internet e outros meios de comunicação em todo Brasil”, afirmou.

(Reportagem adicional de Lisandra Paraguassu, em Brasília)

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