De 2 a 10 de outubro, ciclo de debates na Faculdade de Saúde Pública da USP reúne cientistas e artistas para discutir o tema
 
Dia de falar das condições, da situação e da produção negra do Brasil não é só em novembro. É todo dia. O Outubro Negro na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em São Paulo, chega com essa provocação a sua segunda edição com apresentações culturais e mesas que abordam a contribuição científica e a saúde dos negros, respondendo a uma demanda dos próprios alunos por um maior contato com o tema. Os encontros vão durar três semanas, que começam no dia 2 e vão até 30 de outubro.
 
“Os corpos negros estão na academia e têm fome. Fome de conhecimento e pertencimento”, conta Amanda de Jesus, mestranda da FSP e integrante do Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus que organiza o ciclo. “É uma cobrança. Precisamos tratar a saúde negra nas discussões, fazer o recorte dos negros à frente das pesquisas. E indo além da academia.”
 
Serão três datas com atividades gratuitas no Auditório Paula Souza. No dia 2, o grupo Baterekê faz uma intervenção artística através de elementos afro-brasileiros. Depois, a discussão sobre a violência do Estado e a relação com a saúde negra começa com Débora Maria, do Mães de Maio. O coletivo é formado por mães que perderam seus filhos em ações da polícia, principalmente nas operações de maio de 2006 que mataram 564 pessoas, e lutam por justiça. A deputada estadual Mônica Seixas está entre as participantes.
 
“Essa violência do Estado é o racismo estrutural. Vamos analisar como isso influencia na saúde mental e integral e o atual cenário que vivemos”, conta Amanda.
 
O rap também tem seu espaço. No dia 16, a pesquisadora de análise do discurso e raça, racismo e gênero, Yanelis Abreu, faz uma oficina sobre a identidade e resistência envolvendo letras do ritmo. Em seguida, o tema é saúde mental e a relação com racismo.
 
.
 
 
Integrantes do coletivo negro da FSP em evento anterior – Foto: Arquivo/ Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus|
.
 
“Estarão o Emiliano de Camargo, do Instituto AMMA Psique e Negritude, e João Américo, da Aliança Pró-Saúde da População Negra. Essa mesa é também para entender como esses dois grupos em que eles trabalham estão atuando nessa questão e ver como isso circula na população”, explica Amanda.
 
No último dia, 30 de setembro, uma homenagem com poesia para quem abriu caminho. O sarau Jongando faz sua intervenção com a Comunidade Cultural Quilombaque. Após a apresentação, será a voz de Maria Inês Silva Barbosa. Em seu doutorado em 1998, ela desenvolveu tese sobre racismo e saúde, sendo uma das pioneiras na pesquisa racial na Faculdade de Saúde Pública. Atualmente, ela é professora na Universidade Federal de Mato Grosso.
 
Amanda, que atualmente faz mestrado sobre a influência da raça e da cor na condição nutricional e socioeconômica de famílias, não esconde a satisfação por ter uma referência ali. “É para reverenciar os mais velhos. Ela foi uma das primeiras a fazer uma tese assim na FSP da USP, em outra época, mais complicada. Queremos entender um pouco desse processo também.”
 
Para participar, basta se inscrever preenchendo o formulário. A organização é feita pelo Departamento de Saúde, Ciclo de Vida e Sociedade e pelo Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus da FSP, com apoio da Comissão de Cultura e Extensão Universitária.
 
 
“Você tem fome de quê?”.
 
Discussões na primeira edição do Outubro Negro, em 2018. Em destaque, com o microfone, a professora e organizadora Érica Peçanha – Foto: Arquivo / Coletivo Negro Carolina Maria de Jesus
A primeira edição do Outubro Negro surgiu em resposta à falta de abordagem de pessoas pretas nas pesquisas e na história da FSP, que completou 100 anos em 2018. Junto com a professora Érica Peçanha — atualmente envolvida no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP — o coletivo organizou o ciclo para “torná-los pertencentes e para lembrar que a luta anti-racista é o ano todo”, como diz Amanda.
 
“Tivemos um saldo muito positivo nessa primeira vez. Muitos não sabiam sobre essas discussões. E compareceu um público bem abrangente. Logo depois, criamos um melhor contato com os professores para a organização.”
 
E o próprio coletivo nasceu no contexto entre cultura e saúde, assim como o evento. Em 2016, no dia 16 de outubro, um grupo de alunos fez um sarau chamado Pedaços de Fome, livro da escritora negra e periférica Carolina Maria de Jesus. A data é conhecida mundialmente pelas discussões sobre alimentação.
 
Dias depois, o grupo se reuniu e formou o coletivo de alunos. Atualmente, o movimento faz parcerias com outros coletivos negros da USP para abrigar outras pautas, como a inclusão de cotas na pós-graduação de cursos.
 
A Faculdade de Saúde Pública está localizada na Av. Dr. Arnaldo, 715, Cerqueira César, São Paulo, próximo à Estação Clínicas do Metrô.
 
.Escritora que dá nome ao coletivo na FSP da USP, Carolina Maria de Jesus – Foto: Domínio Público/ Acervo Arquivo Nacional

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.