‘Demissão de comandantes deixa gosto ruim no ar, mas não haverá surpresas’, diz ex-ministro do GSI

Rede Gazeta News Guarulhos

 

11:50:12

BRASÍLIA – O general de Exército da reserva Sérgio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional no governo Michel Temer, considera que o presidente Jair Bolsonaro errou ao demitir o ministro da Defesa e a cúpula das Forças Armadas. Para ele, a ofensiva isola mais o presidente e pode repercutir mal para os ministros militares.Estadão

Etchegoyen avalia que Bolsonaro não vai receber apoio político algum dos militares, mas reconhece que as demissões deixaram “um gosto ruim no ar”. No entanto, ele assegura que não haverá “surpresas” nos quartéis.

O general Sérgio Etchegoyen, ainda ministro do GSI, durante coletiva de imprensa. © Dida Sampaio/ Estadão (18/12/2018) O general Sérgio Etchegoyen, ainda ministro do GSI, durante coletiva de imprensa.

“Se o presidente esperava apoio ao governo, vai continuar esperando”, disse Etchegoyen ao Estadão. “A fonte de instabilidade do Brasil não são as Forças Armadas. O Brasil tem hoje duas fontes de instabilidade: o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.”

Confira os principais pontos da entrevista:

Qual sua opinião sobre a troca dos comandantes das Forças Armadas e do ministro da Defesa?

Tecnicamente, o presidente exerceu uma prerrogativa dele. Goste-se ou não. Acho que foi um erro, lamentavelmente. Essa troca pode melhorar o relacionamento pessoal, se estava ruim. Mas o compromisso com a institucionalidade não muda nada. Troca seis por meia dúzia.

A mudança altera o pensamento das Forças Armadas de se manter afastada da política?

Pelo contrário, pode ensejar… ‘Estamos livres, não somos governo’. Não terá surpresas. As surpresas não têm vindo das Forças Armadas. O presidente fica mais isolado no seu labirinto e vai ter que lidar com isso. Acho que só piorou para ele. Foi um equívoco, embora eu não tenha ideia de como estava o relacionamento. Mas deixa esse gosto ruim no ar.

Por que o presidente se isola mais?

Porque certamente tem gente que não gostou, e acho que muita gente. Consequentemente, vai isolar o presidente e os militares mais próximos dele que vão ser acusados de ter participado dessa mudança. Acho que vai sobrar para bastante gente.

Havia uma cobrança do presidente por apoio político ao governo e a ele.

Se ele acha isso, ele não sabe onde está. Acredite, isso não virá. Não virá.

Na avaliação de Etchegoyen, mudanças na cúpula das Forças Armadas podem ensejar afastamento de militares da política. © Dida Sampaio/ Estadão (18/12/2018) Na avaliação de Etchegoyen, mudanças na cúpula das Forças Armadas podem ensejar afastamento de militares da política.

Se ele está trocando o comando, o que pode mudar?

Se ele estiver esperando uma mudança de atitude, ele não vai ter. Essa mudança de atitude não depende só do Alto Comando, só do comandante. A estrutura toda não vai aceitar, nem tem por que aceitar, nem concorda. Se ele espera isso vai dar com os burros n’água. O Alto Comando fez uma reunião agora e o que saiu foi: ‘Não nos afastaremos da institucionalidade’. Pode botar quem quiser que não vai mudar. Talvez ele espere melhor relacionamento, isso pode mudar. O relacionamento com Fernando (Azevedo, ministro demitido da Defesa) e os comandantes poderia estar desgastado, por razões que desconheço. Ou ele esperava outra coisa do ministro. Se esperava apoio ao governo, vai continuar esperando.

Que mensagem o presidente deixou para a base das Forças Armadas com a troca por razões políticas? Há risco de insubordinação?

Isso não existe. É um erro estrutural achar que vai ter insubordinação. Não vai ter nada. A fonte de instabilidade do Brasil não são as Forças Armadas. O Brasil tem hoje duas fontes de instabilidade: o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. As Forças Armadas estão fora disso. Não tem nenhum exemplo, nos últimos 40 anos, que tenham sido. O Brasil não pode a cada soluço achar que os militares podem… Aí não tem democracia. Fica brincando. Claro que os militares, papel histórico que cumprem no Brasil, pelas ações, o perfil da população, é um ator importante, mas não têm esse papel e não vão fazer. É um erro imaginar que na nossa estrutura democrática de Estado isso pode acontecer.

O presidente usou a expressão “meu Exército” e já disse que as Forças Armadas estão do lado dele.

Se fosse “meu Exército”, ele teria ficado no Exército. “Meu Exército”… O Exército foi meu, muito mais do que dele. O Exército hoje é dos cadetes que estão na Academia Militar e de mais ninguém.

O que provocaria a renúncia dos comandantes? Os comandantes se sentiram demitidos pelo presidente.

Eu não sei se o presidente demitiu, se o novo ministro da Defesa pediu para eles saírem ou se os três pediram para sair. A nota oficial não é muito clara, não deixa saber. Se os três saíram para mim seria uma surpresa, porque não achei que a decisão fosse essa. Se foi do presidente, é o que já falei. Se a decisão foi do Braga Netto (novo ministro da Defesa), vai ter mais um problema para resolver que é entenderem que ele chegou limpando a área.

O sr. acredita na versão de solidariedade dos comandantes da Marinha e da Aeronáutica ao do Exército?

Não. Essa solidariedade não existe entre os militares. Cada um toma sua atitude e responde pelos seus atos. Se o que alegaram contra o Leal Pujol (comandante do Exército) atingia os outros, aí eu entendo. Se não, para mim não faz sentido todo mundo ir embora. O gesto pode ter seu lado bonito, mas não existe isso.

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