São Paulo, 468 anos: murais formam museu a céu aberto e estampam cidade plural

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Diversidade de obras e artistas amplia as representações da identidade paulistana

Numa região central de São Paulo, no tradicional bairro do Bixiga, uma mulher negra é vista de costas, estendendo roupas no varal. “Temos Vagas para Rapazes”, informa a placa manuscrita acima das cordinhas que sustentam as peças. A luz do sol atravessa os tecidos e contorna a cena, na esquina das ruas Treze de Maio e Santo Antônio.

A imagem poderia ser um episódio corriqueiro visto por um morador ou capturado por fotografia, mas saiu das memórias do artista visual Diego Mouro para estampar a fachada do Teatro do Incêndio, um imóvel histórico tombado, datado de 1905.

A escolha do muralista em retratar sua primeira recordação do bairro a convite da instituição cultural atendeu ao desejo de mostrar um outro lado do Bixiga, bastante associado à herança da imigração italiana, mas cujo passado guarda uma história de resistência cultural preta, a do Quilombo do Saracura, um dos primeiros quilombos urbanos de São Paulo.

A mistura entre escravos fugitivos e alforriados era tão estratégica quanto a localização do bairro, encravado na área central.

São Paulo, aniversariante desta terça-feira (25), tem sido cenário de uma ruptura visual, com obras que trazem cores diversas e técnicas variadas.

O painel Saracura foi feito dentro do projeto “Cidade extensão da gente”, parceria entre o Teatro do Incêndio e a Secretaria Municipal de Turismo.

Segundo a produtora e arte educadora do Teatro, Gabriela Morato, o projeto considerou que o Bixiga abriga, em suas paredes históricas, marcas de diversidade.

Ele se junta a diversas ações realizadas nos últimos anos — pela iniciativa privada e pelo poder público — para povoar São Paulo com imagens, personagens e referências mais plurais do que o imaginário associado à herança de raízes imigrantes, de figuras masculinas e traços eurocêntricos.

“Na primeira vez que pisei ali [no Bixiga], ainda adolescente e morador de outra cidade, vi uma mulher, na varanda de uma pensão, estendendo roupas no varal. O sol batia de um jeito diferente e não sei por que aquela cena me marcou”, descreve Diego.

Natural de São Bernardo do Campo, na região do ABC, Diego foi criado na cultura de rua local, em que o skate e o grafite davam o tom. Ele bebeu dessa fonte e se interessou por arte urbana.

“Escolhi o muralismo, que não era tão comum na época. Eu pinto na rua porque sinto a necessidade de troca imediata com os meus, para que eles se vejam e se sintam representados”, afirma.

O mural tem obrigação e necessidade de conversar com o povo e com as pessoas na região onde ele está inserido, de refletir questões e assuntos daquela área

Diego Mouro

Para além dos muros do museu

Se o público não vai até o museu, a obra de arte tem de ser levada até ele. Foi com esse entendimento que o Instituto Moreira Salles encomendou à artista Criola a empena “A Ancestral do Futuro” (2021), por ocasião da exposição “Um Brasil para os brasileiros”, sobre a obra da escritora mineira Carolina Maria de Jesus (1914-1977).

Com pinceladas afrofuturistas, traço estético bastante trabalhado pela artista, o mural revela uma Carolina de olhar firme e confiante que se conecta à figura descrita por parentes da escritora, de uma mulher vaidosa, corajosa e cheia de audácia criativa.

Para a historiadora Raquel Barreto, uma das curadoras da exposição, era preciso levar para fora do museu a imagem de Carolina, moradora de favela em São Paulo e autora de livros como “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”, de 1960.

“A Carolina foi uma pessoa cuja trajetória foi muito marcada por suas andanças e vivências na cidade, e se limitássemos a exposição ao espaço do museu não estaríamos sendo fiéis a sua complexidade e a essas características tão marcantes. Por isso consideramos fundamental que a exposição ocupasse também o espaço da rua”, conta a curadora.

“A Ancestral do Futuro”, de Criola, representa a escritora Carolina Maria de Jesus, perto do cruzamento entre a avenida Paulista e a rua da Consolação / Divulgação

Ainda segundo Raquel, era importante trazer para a paisagem de São Paulo o retrato de uma mulher negra “posando com respeito, dignidade, orgulho e com essa perspectiva de futuro”.

“Embora Carolina não fosse militante ou ativista, sua obra pode ser lida sob uma perspectiva política, por abordar questões estruturais, como desigualdade, racismo, violência. Da mesma forma, o trabalho de Criola é marcado por reflexões importantes com relação ao racismo e à tolerância religiosa, por exemplo. São duas artistas que refletem, cada uma a seu estilo, questões do seu entorno e da sua época”, analisa.

A autora do mural ressalta a importância de levar uma parte da exposição para as pessoas que não tiveram acesso a ela.

“O muralismo é uma arte democrática, que possibilita que várias pessoas possam visualizar. Para mim, é potência ter a Carolina estampada na esquina da avenida Paulista com a [rua da] Consolação”, afirma Criola, também mineira.

Museu é o mundo – e a cidade

Há alguns anos, a Secretaria Municipal de Cultura vem apoiando a produção de obras de artistas de diferentes origens em projetos como o “Grafitaço Jaraguá”, que propôs um intercâmbio entre artistas indígenas, e o “Vozes contra o Racismo”, focado na representação e na obra de artistas negros.

A novidade é a recém-lançada plataforma MAR 360, o Museu de Arte de Rua de São Paulo.

A plataforma permite um giro por diversas obras de arte urbana espalhadas pela capital paulista. O site possuiu acessibilidade, com audiodescrição e Libras, e o conteúdo está disponível em português e em inglês.

Obra do projeto Grafitaço Jaraguá, com artistas indígenas, na zona norte de São Paulo / Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo

Segundo Salete Perroni, uma das coordenadoras do projeto, a intenção é fazer de São Paulo um museu a céu aberto e também virtual, com a promoção de trabalhos coletivos, de trabalhos de artistas periféricos em regiões centrais e dos mesmos em suas áreas de origem.

“O MAR nasceu em 2017 com o intuito de fomentar a arte urbana, dando preferência a projetos com linguagens, artistas e temas que sejam mais plurais. Claro que temos artistas brancos e grafite, mas também temos contemplado indígenas, mulheres, pretos e periféricos, inclusive artistas de fora de São Paulo”, resume a programadora da Secretaria de Cultura.

Identificação e pertencimento

Uma das primeiras mulheres a integrar a seleta galeria de artistas com um mural na região central de São Paulo, Kika Carvalho, natural do Espírito Santo, entende que obras diversas e com figuras não-consagradas nos livros de história ajudam a gerar conexão, identificação e pertencimento.

A formação de Kika, assim como a de grande parte dos que estudaram artes no Brasil, teve fortes influências europeias e norte-americanas. No caso dela, isso provocou inquietações e questionamentos sobre a ausência de estudos sobre artistas negros e de negros nas representações das pinturas.

A opção pela cor azul – característica marcante de sua obra – foi uma tentativa de questionar esse padrão.

Obra de Kika Carvalho para o NaLata – Festival Internacional de Arte Urbana (2021) na avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo / Divulgação

“São muitas as razões para a escolha de representar pessoas negras com azul, sobretudo o azul ultramar, tinta base de todas as minhas pinturas. A principal delas é a relação construída dentro da própria história da pintura em contraponto com a presença/ausência de corpos negros”, conta Kika.

“O azul tem sido para mim um espaço de retorno a tudo aquilo que me foi afastado, renegado, demonizado e desprezado. E foi através da cor que voltei os meus olhos e o meu interesse para as artes que eram produzidas fora do eixo da bibliografia das disciplinas que cursei.”

Com quantas imagens se faz uma metrópole?

Para Renato Cymbalista, o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo), essas novas proposições artísticas trazem à tona uma herança ainda pouco assimilada, de décadas de resistência e ao mesmo tempo de esquecimento.

“As representações historicamente feitas no espaço público [de São Paulo] têm sido evidenciadas como representações brancas, desproporcionalmente masculinas e bastante vinculadas a um tipo de elite paulista que vai se sucedendo como uma elite bandeirista, que vira cafeeira e depois industrial”, comenta o pesquisador.

“Por trás disso há sempre uma ideia de uma elite desbravadora, que se contrapõe à de um Brasil atrasado, colonialista e escravista. E essas representações são muito problemáticas.”

Este cenário, segundo Cymbalista, deixava evidente o quanto a capital paulista foi historicamente organizada mais “para uns do que para outros”.

Em contraponto a isso, analisa o professor, ganhou corpo no espaço público um novo conjunto de representações que questiona esse “monopólio” imagético.

“Essas representações [mais recentes] escancaram isso, ao trazer e denunciar a desigualdade, quando colocam a cultura e a forma de nós nos representarmos em uma posição de centralidade. Isso é um elemento novo.”

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